Literatura

“Feliz Ano Velho”

Marcelo Rubens Paiva era um jovem que poderia levar uma vida tranquila, mas costumava optar pela aventura. Ao matricular-se em Engenharia Agrícola na UNICAMP, abandonou o apartamento de sua família na cidade São Paulo para viver em uma república em Campinas.

Amante do violão, o rapaz chegou a participar de um festival de música promovido pela TV Cultura. Com seu grupo, concorreu com o blues “Bamba Novo”,  de sua autoria. Apesar de não sair vencedor do evento, Marcelo teve o deleite de conhecer na ocasião um de seus grandes ídolos: Tom Zé, que apreciou seu som e o encorajou a seguir a carreira musical.

Marcelinho curtia bastante as festas e as garotas. Galanteador, não conseguia ouvir a palavra “mulher” sem idealizar uma “gostosa” bem enquadrada em seu perfil de beleza. Adorava “dar uma bola” e viajar com seus  – muitos – amigos e amigas.

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A trama de Feliz Ano Velho se inicia com o descontraído mergulho de Marcelo em um lago, ao lado de sua galera. Tragicamente, a cabeça do rapaz colide com uma pedra, ocasionando uma fratura em sua quinta cervical e a consequente perda dos movimentos de seu corpo. A partir daí, ele relata seu processo de recuperação, que inclui longo período na UTI, transferência de hospital e processos cirúrgicos, além de fisioterapia e terapia ocupacional.

Na obra, o hoje escritor, dramaturgo e jornalista intercala a narrativa de seu restabelecimento com lembranças de sua vida antes do acidente. É aí que o/a leitor(a) vai se sentindo mais chegado(a) ao narrador e nutrindo certa empatia por ele, seus familiares e amigos. Ao acessar as confidências, angústias, gozos – literalmente – e conquistas do narrador-personagem, o interlocutor se sente parte da trama.

A admiração do escritor por seu pai e sua mãe são notáveis: Rubens Paiva, ex-deputado federal socialista, foi preso, torturado até à morte e dado como desaparecido durante a ditadura militar; Eunice Paiva, que também chegou a ser presa junto de uma das filhas no mesmo período, viu-se viúva e só aos 41 anos. Mãe de quatro meninas além de Marcelinho, acompanhou e cuidou com esmero do filho acidentado.

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Família completa com a avó paterna Cici.

A carga sexual que o escritor paulista deposita sobre quase todas as mulheres de seu convívio – com exceção apenas de suas parentes – incomoda bastante em alguns momentos. Em certas passagens, o autor parece dar mais importância aos dotes físicos de algumas profissionais do que à competência delas.

Apesar disso, o livro traz mensagens preciosas, sendo capaz de nos tocar. A força admirável de Eunice; a garra do jovem, necessária para encarar de frente as intempéries que o destino apresenta; a imperiosidade da conscientização popular quanto aos diferentes tipos deficiência física e suas causas são, para mim, os ensinamentos mais importantes de Feliz Ano Velho, um clássico da literatura brasileira contemporânea de grande valor.

Fonte da imagem 2: http://epoca.globo.com/vida/noticia/2015/08/filhos-de-rubens-paiva-falam-sobre-o-dia-em-que-o-pai-nao-voltou.html

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