Literatura

As novas figuras do mundo das letras

Se aventurar no mundo da escrita não é fácil! Para quem quer publicar um primeiro livro, os gastos demandados podem ser elevados… Além disso, existe o nível elevado de exigência das editoras, que acabam por rejeitar uma imensa quantidade de pedidos de publicação.

Diante dessa realidade espinhosa do mercado editorial, jovens escritores andam lançando mão de alternativas que os permitam ganhar certa visibilidade ou, pelo menos, garantir que seus escritos cheguem às mãos de leitores interessados em suas mensagens.

Isabela Fiori

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A escritora Isabela Fiori. / Foto: Instagram Isabela Fiori.

Isabela Fiori, habitante do município fluminense de Niterói, cria histórias desde criança, ao lado de sua inseparável prima — a qual considera uma irmã. Hoje, a estudante de Publicidade e Propaganda de 22 anos conta se basear em algumas dessas fantasias infantis para construir sua trama, a qual disponibiliza no Wattpad, plataforma online desenvolvida no Canadá que permite que pessoas ao redor do mundo compartilhem suas histórias de forma gratuita.

“Eu e minha prima, que foi quem cresceu comigo, que é como se fosse minha irmã, tínhamos brincadeiras bem criativas. A gente brincava de faz-de-conta: cada boneca tinha sua história, seu ‘background’, seu namorado, sua profissão…”

Seu livro Contando os Dias fala sobre seis adolescentes cujas vidas de algum modo se entrelaçam — por meio de ligações familiares, românticas ou de amizade. Cada um deles tem seus dilemas, que são trazidos de forma sensível à narrativa por meio de seus próprios pontos de vista, os quais variam a cada capítulo do livro.

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Imagem: Wattpad.

“Eu acho que isso que é a coisa bonita em qualquer história, em qualquer livro, você conseguir ler e se identificar com o personagem mesmo que ele seja completamente diferente de você.”

A universitária conta que foi em sua adolescência que surgiram as primeiras narrativas escritas. Mesmo que, nessa época, ela tivesse muito gosto pela coisa — a mão chegava a doer de tanto escrever! — ela não sonhava em ser escritora profissional. Hoje em dia, com as facilidades oferecidas pelas plataformas digitais de publicação, Isabela vê a possibilidade de investir mais em suas criações literárias.

“Eu acho que isso sempre esteve em mim, essa vontade de criar histórias e de desenvolver personagens.”

A autora explica que a representatividade está no foco das suas histórias. Ao resgatar os personagens construídos ao longo de sua infância, ela dá nova roupagem a eles, trazendo tópicos que seu olhar de criança dos anos 2000 ainda pouco compreendia, como a sexualidade e o feminismo.

“Eu queria fazer uma adaptação desses personagens que eu já amava, porque eu tenho um apego emocional, porque é algo que faz parte da minha infância, e transformar em alguma coisa mais realista, algo com mais representatividade.”

Isabela conta que seu estilo de escrita tem tom semelhante ao de Ágatha Christie, uma de suas escritoras favoritas, ao lado de Chimamanda Ngozi Adichie. Ela diz que sua escrita tem tom direto e pouco descritivo, de modo similar ao da renomada romancista britânica.

A trama de Com Amor, Simon, livro que deu origem a filme homônimo, também é citada pela universitária como fonte de inspiração, por tratar de temáticas como a homossexualidade e a pressão imposta pelos padrões de beleza. A jovem diz que Becky Albertalli, autora da obra, tem outras publicações de temática semelhante, das quais também gosta bastante.

Isabela tem vontade de seguir escrevendo e publicando suas criações em plataformas digitais. Por enquanto, no entanto, pretende focar em concluir Contando os Dias, obra que ainda não foi finalizada, o que tem causado certa ansiedade nos leitores mais ávidos.

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Isabela tem vontade de seguir escrevendo e publicando suas criações em plataformas digitais. / Foto: Instagram Isabela Fiori.

“Hoje em dia eu acho que esse sonho de ser escritora está muito mais real.”

Isabelle Reis

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A escritora Isabelle Reis. / Foto: Instagram Isabelle Reis.

A jornalista Isabelle Reis, de 24 anos, decidiu publicar seu primeiro livro físico em novembro do ano passado, após disponibilizá-lo em versão digital no Wattpad e na Amazon. A obra, chamada Dança Perigosa, narra um romance entre um policial do BOPE e uma bailarina, tendo como principal pano de fundo a favela da Rocinha, a maior do Rio.

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Foto: Instagram Isabelle Reis.

Mas o hábito de escrever, para ela, não é coisa nova. Desde a sua quarta série, as palavras são suas companheiras.

“Comecei com história de terror, que eu mostrava pra minha professora e pra filha dela. A partir de então, todos os meus cadernos passaram a ter uma matéria a mais, para as minhas histórias.”

Isabelle gosta muito de retratar a realidade dos moradores das favelas cariocas em suas tramas. O motivo disso é a proximidade que tem com esses cenários, devido a trabalhos voluntários que realiza em comunidades como Mangueira e Cidade de Deus, e também ao fato de habitar o subúrbio da cidade.

“Quando sento no ônibus pra ir pro trabalho ou quando estou com os amigos, eu sempre tenho uma ideia de história.”

A jornalista encara com seriedade o seu dom para a escrita, enxergando seus livros como instrumentos de mudança social. É por isso que as pesquisas, teóricas e experimentais, têm um grande papel na construção de suas histórias: ao visitar os cenários de seus escritos e se afundar em leituras sobre os perfis de pessoas que deseja retratar, a escritora garante a construção de personagens verossímeis e distantes de estereótipos.

“Apesar de pobre e filha de uma costureira e um pedreiro, a Alice (personagem de ‘Olhe Para o Céu’) tem um tio que é professor de uma faculdade de física, sabe? A vontade não veio do nada. Esse é o meu desejo com todas as histórias, mostrar que tem coisa boa na periferia.”

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Imagem: Facebook Isabelle Reis.

Para concretizar sua vontade de levar Dança Perigosa às gráficas, a autora encontrou um obstáculo: a falta de dinheiro. Afinal de contas, design da capa, diagramação, ISBN, registro na Biblioteca Nacional, revisão e impressão não se pagam sozinhos. Segundo ela, um autor independente, para fazer cerca de 100 livros, precisa desembolsar entre R$ 1,5 mil e R$ 2 mil.

“Eu precisei fazer um empréstimo no banco pra pagar meu primeiro livro. Foi desesperador não saber se eu poderia pagar o investimento, mas felizmente deu tudo certo.”

Isabelle descreve o passo a passo de publicação de uma obra literária: primeiro deve-se fazer a primeira revisão, seguida da diagramação e, depois, da segunda revisão. Em seguida, vêm a criação da capa, a aquisição de um código de barras e, enfim, o envio à gráfica.

“O que importa mesmo é a qualidade da história. Não tenha pressa: crie, reescreva, estruture a história e faça dela seu carro-chefe.”

Mas esse esforço, pelo visto, vale muito a pena. A jornalista demonstra adorar a sensação de ter uma publicação com seu nome estampado. Não à toa, ela segue soltando sua criatividade e elaborando suas queridas tramas.

“Publicar livros é como um vício: você faz o primeiro e já está pensando no segundo, terceiro (risos).”

Hugo Pascottini Pernet

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O escritor Hugo Pascottini Pernet. / Foto: Facebook Hugo Pascottini Pernet.

Hugo Pascottini Pernet, jornalista morador do bairro de Jacarepaguá, tem 28 anos e escreve desde os 12. Suas primeiras historinhas eram escritas em folhas de papel A4, as quais ele dobrava e grampeava de modo a produzir livros artesanais. E as pequenas obras tinham título, capa ilustrada e tudo mais!

“Tiro uma lição desses momentos de criação de quando eu era menor: aprendi que todo artista guarda uma criança em seu interior. Se essa criança morrer, o artista morre junto.”

Ele, assim como Isabelle, decidiu investir na publicação de um livro físico. Sua obra, Memórias da infância em que eu morri, trata de uma criança que percebe, por meio do comportamento estranho de seus pais, estar enfrentando uma séria doença.

“O que sei é que escrevo quando tenho algo a dizer. Quando tenho a vontade (necessidade) de dizer algo que as pessoas precisam ouvir.”

O autor diz que a obra tem caráter autoficcional, por mesclar fatos vividos por ele em sua infância a outros inventados. Hugo diz que, desde o momento em que, anos atrás, foi diagnosticado com a doença, trazia a vontade — mesmo que talvez inconsciente — de transformar os episódios vividos em livro.

“Talvez a ideia de transformar esses episódios marcantes da minha vida em livro tenha vindo da vontade de recriar a minha vida dentro de um mundo ficcional. Afinal, esse é o objetivo da literatura: recriar (e não reproduzir) a realidade.”

Hugo ressalta que, apesar da atual facilidade de se publicar um livro — devido às plataformas digitais — um autor amador precisa se dedicar caso queira alcançar um bom número de leitores. Ele recomenda a contratação um profissional que faça o serviço de análise crítica de texto, que costuma cobrar por lauda. O autor também destaca a presença nas redes sociais e o domínio de técnicas de marketing digital como pontos fortes de um escritor de sucesso.

“Antigamente, o escritor publicava para depois ser conhecido. Hoje é o contrário: o escritor é conhecido e depois é publicado.”

E parece que o esmero de Hugo rendeu um ótimo resultado! Seu Memórias da infância em que eu morri, que foi publicado de modo independente em formato de e-book na Amazon, teve repercussão tão boa que a editora Penalux entrou em contato com o autor a fim de publicar o livro no formato físico.

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Foto: Facebook Hugo Pascottini Pernet.

Para colocar as ideias no papel, doses de inspiração são sempre bem-vindas. E, para o jornalista, elas podem vir de muitas fontes. Ele cita Saramago, Mario Vargas Llosa, Clarice Lispector, Hilda Hilst e muitas outras.

E parece que inspiração é o que não lhe falta! Afinal, Memórias da infância em que eu morri é apenas a primeira publicação de uma trilogia intitulada Entre realidade e invenção. E os dois outros volumes já foram escritos! Atualmente, o autor está revisando o segundo, enquanto aguarda pelo momento certeiro para publicá-lo.

“Livros são como filhos: é preciso ter paciência no período de gestação, caso contrário, podem nascer prematuros.”

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