Literatura

5 poemas de Cecília Meireles que fazem pensar sobre a vida!

 

cecilia meireles1

Os poemas de Cecília Meireles são especiais. Para mim, a escritora se posiciona certeiramente entre o otimismo e o pessimismo, ao abraçar com seu forte caráter lírico as diversas questões impostas durante sua trajetória.

A leitura de sua obra me coloca diante das mais variadas reflexões, todas as quais já atravessaram meu íntimo em algum momento. Convido você a também experimentar e se deliciar com as palavras de Cecília, que são como as ondas do mar das quais ela tanto fala: ora pungentes, ora serenas — mas sempre acertadas.

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
-- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
-- mais nada.

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
-- Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Canção

Pus meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
-- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito:
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

Canção excêntrica

Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
Protejo-me num abraço
e gero uma despedida.

Se volto sobre o meu passo,
é já distância perdida.

Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
-- saudosa do que não faço,
-- do que faço, arrependida.

Despedida

Por mim, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranquilo:
quero solidão.

Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? -- me perguntarão.
-- Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.

Que procuras? -- Tudo. Que desejas? -- Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.

A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?

Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra...)

Quero solidão.

Sobre Cecília Meireles

cecilia meireles

Cecília Meireles foi uma das primeiras mulheres a se destacar no universo da produção literária brasileira. A poetisa carioca veio ao mundo em 7 de novembro de 1901, no Rio de Janeiro. Órfã de pai e mãe, foi criada pela avó materna.

Concluiu o curso primário na escola Estácio de Sá e diplomou-se professora pela Escola Normal do Instituto de Educação, ambas instituições localizadas no Rio de Janeiro. Colaborou em diversos periódicos das cidades do Rio e de São Paulo, lecionou em universidades brasileiras e estrangeiras. Organizou a primeira biblioteca infantil do Brasil, no Pavilhão Mourisco, no bairro carioca de Botafogo.

A escritora morreu em decorrência de um câncer em 9 de novembro de 1964, aos 63 anos. Recebeu, post mortem, o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra.

Referências

MEIRELES, Cecília. Os melhores poemas de Cecília Meireles / seleção Maria Fernanda. São Paulo: Global, 2002. 14ª edição.

 

 

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