Literatura

Bate-papo sem fio (e sem noção)

É engraçado como há certos amigos que nem lembramos como entraram em nossas vidas. São aquelas amizades que brotam de laços que transcendem gerações: encorajada pela afinidade existente entre mães, pais, avós ou tios, surge uma aproximação, que por vezes atravessa longos anos.

Curioso é que esses amigos que nos vêm sem muito esforço ou procura são por vezes os mais acertados. É fato que os companheiros que conquistamos a partir de gostos e hábitos afins, ao longo da vida, são igualmente valiosos. Mas para mim é intrigante como algumas dessas minhas amizades sem um começo tangível tanto anunciam que não terão fim.

Com nós três o esquema foi esse. Lalá e eu fomos condicionadas à amizade eterna a partir do primeiro contato. Tendo em vista que desde o nascimento dividimos muitas coisas (incluindo a mamãe e o papai), aprendemos a nos amar e a conviver incrivelmente bem; eu tinha ganhei um apelido carinhosíssimo — “galota”.

E o Lucas entrou na roda. Se a amizade entre nossas mães e pais era o principal motivador de nossa amizade, o fato de estudarmos todos na mesma escola (a saudosa Brotoeja) e morarmos no mesmo quarteirão foram capazes de consolidá-la.

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Eu, Lucas e Larissa.

 

Mas a parte mais legal disso tudo era “morarmos no mesmo quarteirão”. Uma das janelas do lendário apartamento em que eu Larissa habitávamos com nossa família voltava-se justamente para a direção das janelas de onde o Lucas morava.

Os prédios eram afastados um do outro por uma caminhada de cinco a dez minutos, apenas. As janelas, próximas o suficiente talvez para uma pessoa com vista sadia contemplar o vizinho decentemente.

No entanto, para nós as ventanas eram nada menos que meios de comunicação. Nisso, eu e minha irmã atormentávamos os vizinhos, por crermos que gritar até o Lucas aparecer era, evidentemente, muito mais interessante do que ligar para o telefone dele.

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Larissa e eu no sofá. Ao fundo, a janela que dava para o prédio do Lucas.

Berrávamos até ele dar as caras. E Lucas não falhava. Nem tinha como. Afinal, muitos dos nossos bate-papos via gritaria na janela eram combinados previamente, quando nos encontrávamos na Broto.

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Larissa e Lucas na Brotoeja, em uma das festinhas de aniversário realizadas na escola.

O mais engraçado é que não tínhamos pautas específicas para a conversa. A vontade era só ver a cara um do outro e jogar conversa fora. Tipo um FaceTime. Mas sem internet. Sem motivo aparente. Entre pessoas que moravam no mesmo quarteirão. E aos berros.

Às vezes, pedíamos, via brados, para o Lucas nos dar o sinal do fax. Com isso, nosso aparelho emitia um barulho que indicava que podíamos enviar mais um de nossos tantos desenhos ao nosso amigo, enfrentando, com esse aparato tecnológico respeitável, a imensa distância que nos afastava.

Recentemente, ao visitar a casa do Lucas, me espantei ao olhar para fora. A distância para a velha janela pela qual eu e Lalá nos comunicávamos com nosso amigo era maior do que eu me lembrava. Certamente grande demais para permitir um bate-papo entre vizinhos. Mas não para nós três, há 15 anos atrás. Para crianças criativas e um pouquinho inconvenientes, nenhuma janela é distante demais.

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A vista do nosso antigo prédio, da janela do Lucas. No nono andar, a janela de onde eu e Larissa emitíamos nossos gritos.

 

 

 

6 comentários em “Bate-papo sem fio (e sem noção)

  1. Rafa, seus textos são sempre especiais e com muita emoção! Mas rever essa parte da vida de vocês e rever as fotos da Lari e do Lucas, da época em que dei aula pra eles mexeu ainda mais com meu coração!
    História linda! Memórias afetivas que não esquecerão jamais!
    Lindo! Parabéns!

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    1. Gil, que alegria ler isso de você! Sim, relembrar, escrever e ler sobre esses eventos é sempre emocionante… ainda mais quando encontramos registros fotográficos para fortalecer ainda mais a memória! São muitas histórias que carregamos, todas muito especiais… 💙 Obrigada, de coração! Beijos com muito carinho! 😘

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  2. Amei o ” bate papo sem fio ” querida Rafaela. Trouxe-me recordações, pois nós os adultos pais , também, algumas vezes, utilizávamos essa tecnologia sem muito sucesso para nos comunicar fazendo gesto com a mão ” pega o telefone aí ou liga pra mim. Que alegria. Parabéns! Que Deus te abençoe! Bjs

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