Crônicas

Que vá bem com Cocada

Passado algum tempo do triste falecimento da querida Jujubinha, nossa família decidiu adotar outra cadelinha, para fazer companhia à adorável e doce Cocada. A partir de então, nossas atenções passaram a se voltar a oportunidades de adoção de cachorros.

E aconteceu que, em um dia qualquer, em uma volta pelo meu bairro, avistei uma feira itinerante de uma associação de resgate de animais sem lar. Bati os olhos nos filhotes e me desmanchei! Era cada um mais fofo, levando minha memória ao dia em que eu Lalá pegáramos Jujuba e Cocada, então pequeninas e bastante felpudas.

Em um cercadinho à esquerda dos pequenos desajeitados, outra criatura jazia quieta, deitada, aparentemente intimidada pelo alvoroço. Seu pelo castanho claro parecia sedoso, e a vontade de acarinhar aquela fofuxa com cara de “me adote” era grande.

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Ela tinha o perfil que desejávamos: fêmea, de porte médio e já com quase um ano de idade. Além disso, mostrou-se dócil e amigável, o que seria importante para garantir a boa convivência com nossa cadelinha malhada. Entrei em contato com meu pai, que foi até lá e deu seu voto: a candidata preenchia com louvor os requisitos para ser a nova companheira da Cocada.

Felizes, formalizamos nossa adoção, com direito a uma foto com a nova amiga. Uma informação descoberta no ato nos surpreendeu: a criaturinha de pelos cor de mel já havia sido adotada e devolvida por outra família, provavelmente por ter crescido mais do que o esperado. Isso nos fez ainda mais contentes por poder dar a ela um novo lar.

Da praça onde ela estava exposta até nossa casa, foram cerca de vinte minutos de uma caminhada mais tranquila do que o esperado. A cadelinha parava às vezes para cheirar um objeto ou um amigo felpudo, porém mantinha a compostura, sem arrumar confusão. Até então, sequer conhecíamos o timbre de seu latido.

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Ao chegarmos à nossa casa, na Tijuca, instalamos a nova companheira em um cômodo devidamente suprido com jornal, água e alguns petiscos, para que ela descansasse da caminhada enquanto arrumávamos nossos pertences para o passo seguinte: em alguns minutos, partiríamos para aquela que seria a residência oficial de nossa companheira, em Itaipuaçu, onde Cocada a esperava.

Nossa cadela recém-adotada, no entanto, ignorava que seu destino final não seria aquele simples quarto, mas um amplo quintal. Logo logo, ela iniciou um choro baixinho. Cheia de piedade, eu parava a arrumação da minha bolsa de dez em dez minutos para confortá-la — pena que ela não entendia quando eu a consolava dizendo que em breve ela estaria correndo pela grama com uma nova amiga.

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Bolsas prontas, era hora de partirmos para a próxima (e última) parada. Após ajeitarmos tudo dentro do carro que nos levaria, instalamos uma caixa grande de papelão no banco de trás, para comportar nossa nova cadela e evitar quaisquer estragos ao estofado do banco de um veículo que não era nosso.

A maior parte da viagem havia transcorrido na maior calma, o que me soava estranho. Afinal, para uma cadela de nove meses sem experiência com passeios de carro, minha companheira de banco de trás parecia comportada e tranquila demais.

Esse pensamento permanecia em minha mente quando, na travessia de uma serra, comecei a ouvir uns barulhos esquisitos. Como se alguém ao meu lado tivesse refluxo. Dirigi o olhar à minha vizinha canina, que movimentava a mandíbula de forma que fugia à normalidade. Em segundos, o anunciado se revelava: uma pequena poça cremosa, cor de burro quando foge, se alastrava sobre o papelão, vindo da boca da cadelinha.

A situação era previsível: uma cadela que, enjoada devido às curvas e declives do caminho, botava parte de uma refeição recém-feita para fora. Contudo, nossa falta de experiência prévia deixou-nos de mãos atadas diante do ocorrido. Felizmente, nosso destino estava a poucos minutos de distância: em breve limparíamos devidamente a pequena lambança.

Nosso nobre objetivo, no entanto, não pôde ser posto em prática. Pois bastou um breve minuto de distração dos passageiros para que a cadela se convencesse de que aquele conteúdo de aparência desagradável lhe renderia uma boa refeição.

Rápida no gatilho, nossa colega colocou de volta em seu estômago o que dele acabara de expulsar. O terreno foi tão bem lambido que, não falássemos, ninguém suspeitaria do que acabara de se passar por ali.

Grande cadelinha dos pelos cor de mel… Aquilo era uma mera amostra grátis do tipo de artimanhas que ainda viria a aprontar.

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